Segurança pública só se discute de crise em crise

Posted on Maio 22, 2006


soudapaz.org/divulgação
soudapaz.org/divulgação

Por Ana Carolina Moreno
(
Terra Magazine – 22/05/2006)

Meio-dia da segunda-feira, 15 de maio, centro de São Paulo. A catedral da Sé foi ocupada pelos representantes máximos da igreja católica, da congregação israelita em São Paulo, da OAB-SP, de órgãos judiciais e de organizações não-governamentais de defesa dos direitos humanos, em solidariedade às forças policiais atacadas pelo crime organizado no fim de semana anterior e para cobrar o combate firme ao crime organizado no Estado. A notícia, porém, sequer chegou aos demais paulistanos, já que novos ataques acabaram tomando conta dos noticiários e o caos se espalhou pela cidade.

Seis da tarde de sexta-feira, 19 de maio, Vila Madalena. Mais de 20 funcionários e voluntários das mesmas organizações de defesa dos direitos humanos se reúnem na sede de uma delas, o Instituto Sou da Paz, com um motivo completamente diferente: discutir idéias e estratégias de atuação para evitar que os eventos da semana impeçam os avanços dos programas de combate à violência que já estavam em progresso. Deniz Mizne, diretor executivo da ONG, concedeu entrevista a Terra Magazine:

As ações dos defensores de direitos humanos mudaram com esses ataques?
Acho que mudou para todo mundo, mas temos que saber separar as coisas. Existe uma série de ações bem sucedidas em reduzir a criminalidade que vem dando resultado. Estamos em um momento de melhora e muitos programas correm o risco de perder espaço. A polícia também vem melhorando. É incomparável a polícia que tínhamos no governo Fleury com a que temos hoje. Mas o que mudou foi a reflexão de que precisamos nos afastar de posições fechadas, de olhar só para um lado da questão.

Por que essas melhorias não eram tão divulgadas antes?
Infelizmente segurança pública só se discute de crise em crise. Em 2004, mais de 36 mil pessoas foram vítimas de homicídio no Brasil. Em 2005 o número deve ter ficado parecido. O Brasil é onde mais se mata em números absolutos, e isso sem contar o número de assaltos, seqüestros… As pessoas sempre vivem com medo, mas só se lembram de discutir a segurança pública quando um problema sério como esse acontece.

Até essa sexta-feira, mais de 100 suspeitos foram mortos pela polícia. Como as ONGs vêem essa reação do Estado?
O número de pessoas mortas pela polícia no Estado foi de 324 em 2005, o que dá uma média de seis mortos por semana. Entendemos o medo da população e a indignação da própria polícia, que sofre da falta de solidariedade da população quando faz o perigoso trabalho de protegê-la, e não podemos renegar os avanços feitos no sistema, mas achamos necessário acompanhar todos os inquéritos dos 107 supostos suspeitos mortos pela polícia.

Quem tem culpa pelo problema?
A sociedade. A primeira coisa que as pessoas deveriam fazer é realmente refletir sobre a sua responsabilidade, quantas vezes no seu dia a dia compactuam com algo que acaba influenciando a violência, quando você negocia com um traficante a compra de drogas e financia o crime organizado, quando você suborna um policial na estrada para não levar multa e incentiva a corrupção, quando você sonega imposto e contribui para a falência do sistema de educação e de saúde… As pessoas devem pensar em como votam, em como a corrupção eleitoral tem a ver com tudo o que tem que ser discutido.

O que fazer agora?
Temos que fugir de qualquer solução fácil. A violência é um problema complexo, e causa uma situação tão caótica que não tem solução imediata. Precisamos ter coragem de encontrar uma solução, montar um sistema que, em longo prazo, vai resolver o problema, e não empurrar com a barriga até que outro problema, ainda mais sério, surja. Precisamos fugir desse ciclo.

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