A moda das feministas

Posted on Maio 30, 2006


Ana Carolina Moreno
(Terra Magazine – 30/05/2006)

sof.org.br/divulgação
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Saias de retalhos, que misturam estampas, tecidos lisos e listrados, de qualquer cumprimento. Batas de crochê de todos os tamanhos e modelos, de preferência únicos e sem etiqueta. No pescoço, colares de sementes, quanto maiores melhor. No peito, camisetas, produzidas ou feitas à mão, com mensagens provocativas. Isso tudo com a predominância de tons em lilás; e mais: com direito a misturas ao verde, ao laranja e ao rosa-choque. O cabelo é ao natural, e pode ser trançado ou enfeitado por fitas. Chapinha? Objeto de longuíssimas discussões. Informais, fora da pauta.

Não, não se trata da tendência outono-inverno apresentada na última São Paulo Fashion Week; aliás, a combinação de estilos e cores flagrada por Terra Magazine seria capaz de provocar ânsias e caretas em estilistas e críticos. Falamos aqui da moda das feministas na Marcha Mundial das Mulheres. Em Belo Horizonte, nas dependências do Sesc, elas pintaram e bordaram, a seu modo, no I Encontro Nacional da organização.

Vindas de 22 estados brasileiros, elas são filhas, mães ou avós. Indígenas, negras, brancas ou amarelas. Pobres ou de classe média. Quilombolas, sindicalistas, camponesas, médicas, sem-terra, estudantes ou vereadoras.

Letícia já foi presa por colar lambe-lambe (cartaz em postes, com cola extra-forte) em defesa da legalização do aborto.

Estrela já ajudou mais de 100 mulheres a conseguir medicamento para fazer aborto.

Mariah exercita os músculos arrombando portas de edifícios abandonados, que servem de abrigo ao Movimento dos Sem-Teto.

Por quatro dias, o jeito de se vestir das mulheres do I Encontro se espalhou pela capital mineira. Colares e as batas ainda são o grande sucesso, e são vendidos durante os intervalos das atividades em barracas improvisadas. Mas nenhuma mercadoria é tão comercializada como as camisetas. Estampados no peito elas carregam seus ideais.

O grande lançamento da estação é a camiseta em solidariedade às mulheres da Via Campesina. A mensagem é quase um out-door da radicalidade: – 8 de março – Aracruz Celulose – eu estava lá.

A peça expressa o apoio das mulheres da Marcha Mundial às suas aliadas, as que no Rio Grande do Sul invadiram o laboratório da Aracruz em protesto contra a monocultura de eucalipto.

Renata, estudante paulistana se orgulha da compra:

– Essa não é o máximo?

Com apenas 15 anos, quatro deles a militar na Marcha no Rio Grande do Norte, Risoneide comenta um episódio em que vestia uma das mais polêmicas camisetas, a que diz Eu aborto, tu abortas, somos todas clandestinas:

– Fui com a camiseta a um encontro da Igreja. O padre olhou feio, mas não disse nada.

O “pretinho básico” das feministas é a blusa com o logo da Marcha, criada em 2000 e com ativistas em quase 200 países. Uma mescla do símbolo que indica o feminino (o círculo com o sinal de + embaixo) e uma corrente de mulheres ao redor de um globo, de mãos dadas. Mensagem embutida: para conquistar a liberdade.

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