Porteiros são vítimas esquecidas dos assaltos

Posted on Junho 9, 2006


Ana Carolina Moreno
(Terra Magazine – 09/06/2006)

Vigias são as primeiras vítimas quando acontece um arrastão; quatro deles narram essa experiência para Terra Magazine

Assalto, invasão, arrastão. São vários os apelidos do crime que vem batendo na porta da classe média paulistana: entre julho de 2004 e junho de 2006, estima-se que mais de 35 prédios de alto padrão foram assaltados em São Paulo, pelo menos cinco só neste ano, segundo o Secovi, Sindicato da Habitação. A Secretaria de Segurança Pública não revela esse dado.

Prédios de alto padrão em bairros nobres de São Paulo são vítimas freqüentes de ataques bem elaborados por quadrilhas organizadas, que estudam a estrutura do edifício e a rotina dos moradores antes de planejar a invasão e, em grande parte das vezes, desaparecem bem antes de a polícia ser acionada.

Considerado por muitos como o crime da moda, arrastões a prédios de luxo recebem destaque especial da mídia, que oferece detalhes sobre como a segurança do edifício foi furada, quantos assaltantes formaram a quadrilha, quantos dólares e jóias foram roubados e quantos moradores foram feitos reféns. Recentemente, a Polícia Militar criou uma lista de normas a serem seguidas para evitar essa visita desagradável.

As primeiras vítimas dos assaltantes, no entanto, recebem pouca ou nenhuma atenção. Os porteiros – cuja data comemorativa é o 9 de junho – são sempre os primeiros a ser rendidos e, geralmente, são forçados, sob a mira de uma arma de fogo, a permanecer na guarita e fingir que tudo está bem durante toda a operação. Quando tudo acaba e a polícia vai embora, eles ainda correm o risco de levar a culpa e perder o emprego.

Os que mantêm o trabalho evitam o assunto. Os porteiros de plantão se recusam a fornecer detalhes sobre o episódio, afirmando, geralmente, que foram proibidos pelos síndicos. Só quatro aceitaram dar depoimento. Todos os nomes foram alterados para proteger suas identidades. Leia suas histórias nos links abaixo:

A chave do prédio
O dia 14 de novembro de 2005 caiu num domingo. Era cedo quando Ricardo* chegou ao trabalho, um prédio de 12 andares em Moema. Seu turno, das 6h às 13h, prometia ser tranqüilo, e a primeira tarefa foi abordar um morador que esperava um táxi atrás de um dos pilares em frente ao hall de entrada.

– Eu coloquei a mão no ombro dele e disse ‘Amigo, não é melhor esperar ali na frente?’. Então ele vestiu uma máscara e falou ‘Que amigo o quê!’. Sacou duas armas grandes e me rendeu.

Depois de rendido pelo assaltante que ele imaginava condômino, Ricardo foi levado à guarita e forçado a abrir o portão para a entrada do resto da quadrilha. O porteiro, que diz ter 25 anos de profissão – 15 no edifício em Moema -, sabia que não deveria reagir. Mesmo assim, curioso, perguntou se a invasão tinha acontecido quando Ricardo havia deixado a guarita por alguns minutos para apagar uma luz no hall. Recebeu uma resposta calma:

– Estou aqui desde as quatro da manhã. Dormi ali em cima do muro, vi você chegar e se trocar.

A estratégia da quadrilha, formada por cerca de 15 pessoas, era aguardar os moradores descerem do apartamento e abordá-los na saída do elevador. Em seguida, trancavam-nos, inclusive as crianças, na sala de força, na garagem.

– Daqui da guarita dava para ouvir os gritos de medo das crianças. Chegou uma hora em que o bandido que estava aqui pediu, pelo rádio, para os da garagem parar de apavorar as crianças, que dava para ouvir de longe. Ele me disse que eles não eram disso, de machucar pessoas. Só queriam dinheiro.

Na rua, um carro com outro integrante da quadrilha fazia rondas para se certificar de que a invasão corria bem. Ele também se comunicava no rádio com os demais assaltantes. Quando seis dos 12 apartamentos já haviam sido assaltados, os criminosos se deram por satisfeitos. Como era um domingo, a outra metade dos moradores estava viajando. Além de jóias e dinheiro (reais, dólares e euros), os assaltantes levaram equipamentos de televisão e vídeo do salão de festas e saíram em seus próprios veículos.

Hoje, sete meses depois do episódio, Ricardo afirma que a segurança do prédio foi reforçada. Câmeras de vídeo foram espalhadas por todo o prédio, inclusive na calçada, e um sensor infravermelho agora soa um alarme caso as grades sejam atravessadas. A maior proteção deixa Ricardo menos apreensivo, e ele ainda trabalha das 6h às 13h. Gosta do horário, que diz passar rápido: “O maior movimento é só na hora do almoço”.

Ele não descarta, no entanto, a possibilidade de um assalto ocorrer novamente, e de passar mais horas com uma arma de fogo apontada em sua direção, afinal, como gosta de dizer, “o porteiro é a chave do prédio”.

Controle externo
O plantão de Marcelo* começava às 22h, mas ele sempre chegava uns 15 minutos antes, para se trocar e se preparar para ocupar a guarita, como é costume entre a maioria dos porteiros. Já fazia um ano e meio que ele trabalhava em um prédio em Higienópolis, onde ganhava um bom salário: entre R$ 850,00 e R$ 900,00. Como seu horário era de 22h às 6h, ele ganhava o adicional noturno, além de receber pelos feriados em que trabalhava.

No total, acumulava 12 anos na profissão. Em seu currículo, constam ainda diploma de ensino médio e cursos de aperfeiçoamento que não eram requeridos para o emprego, como nível básico de inglês, computação e atendimento a central de telefones. Nada disso, porém, foi páreo para a preparação da quadrilha que invadiu o prédio em 1º de outubro de 2005, meia hora depois do início de seu plantão.

Para burlar a segurança, os assaltantes, quatro homens e uma mulher, conseguiram um dos controles de abertura do primeiro portão da garagem, que ficam de posse de todos os condôminos. O segundo portão é sempre aberto pelo porteiro. Marcelo afirma que não reconheceu o carro, mas abriu a passagem mesmo assim.

– Eu cometi a falha de abrir. Não reconheci o carro, mas os moradores sempre trocam de carro, ou passam meses sem aparecer no prédio… Muitos moradores deixam um controle com os filhos que não moram no prédio. O controle que se costumou a fazer era que, se o motorista tem o controle para abrir o primeiro portão, a gente abre o segundo.

Armados com mini-metralhadoras, ou matracas, conforme o jargão da polícia, os assaltantes logo renderam o porteiro, que afirma ter sentido, ao mesmo tempo, enorme calma e enorme nervosismo. Enquanto uma arma era apontada para sua cabeça, um dos assaltantes o mandava deixar as mãos à vista.

As ameaças a Marcelo duraram apenas cinco minutos, período que, segundo ele, durou uma eternidade. Um dos moradores percebeu a movimentação e chamou a polícia, que já estava à procura de uma quadrilha que, meia hora antes, havia invadido um edifício nos Jardins.

Dos cinco, dois conseguiram fugir e dois foram capturados. O quinto tentou fugir no carro, atirando nos policiais. Após ferir um deles na perna, a polícia revidou e o assaltante foi morto.

Logo após o episódio, Marcelo saiu de férias, que já estavam programadas. Ele aproveitou para tentar esquecer o que aconteceu, apesar de admitir que o evento o deixou bastante abalado.

– Tinha até conversado com minha esposa sobre pedir as contas. Quando voltei, fiquei sabendo que seria demitido. Acho que não foi o síndico, e sim alguns moradores, que acharam que a culpa tinha sido minha. Não entramos em um acordo.

Hoje, ele ainda é porteiro, mas em um prédio comercial. Trabalha durante o dia e se sente mais seguro. Enquanto ainda estava desempregado, enviou currículos para empresas que terceirizam o serviço de portaria dos prédios e descobriu mais uma dura realidade.

– Essas empresas escrevem no contrato que vão pagar os porteiros o mesmo salário que a média, mas, na verdade, o valor é de uns R$ 380, R$ 420, por 12 horas de trabalho. O serviço é muito pior, porque o porteiro faz isso como um bico, até achar coisa melhor. Trata todo mundo com má vontade e não tem nenhum vínculo empregatício.

Ele também rebate críticas de que os porteiros não estão preparados para o trabalho. Segundo ele, os profissionais sabem o perigo que enfrentam e sempre lêem as notícias sobre assaltos, inclusive em jornais da categoria que falam sobre os cuidados para evitar o crime.

– É o que a gente faz pra sobreviver. Tentamos ficar espertos, lemos o que acontece, mas tomamos bronca dos moradores se somos chatos, pedimos para a visita assinar o livro ou para se identificar. Não é falta de treinamento, os assaltantes é que estão sempre na frente. São bem vestidos, falam bem, são profissionais preparados para isso, não um bando da favela que resolve ir assaltar um prédio.

Sob a mira de uma pistola
As cinco horas que Francier passou sob a mira de uma pistola 765 parecem não tê-lo abalado. Hoje, um ano depois do assalto que ocorreu no prédio onde trabalha, em Moema, ele continua com a mesma atitude e também é o único dos entrevistados sem medo de divulgar seu nome – o primeiro, pelo menos.

Em 17 de abril de 2005, um alicate foi usado por um homem para fazer um buraco no alambrado na parte de trás do edifício de 17 andares, com um apartamento por andar. Depois de passar pela fenda, feita às escondidas de madrugada, o homem chegou até a guarita onde ficava o vigia noturno e o rendeu imediatamente. O vidro da portaria não era – e ainda não é – à prova de balas.

Quase uma hora depois, Francier chegava para ocupar a guarita. Ele notou que o vigia estava totalmente paralisado, com os braços cruzados em frente ao corpo, mas só percebeu o que se passava quando entrou no prédio e percebeu que, de dentro do banheiro, um homem apontava uma arma para ele.

Na hora, ele afirma ter ficado controlado, mas, quando foi levado até a garagem, onde oito outros homens o empurraram e fizeram deitar de barriga no chão, ele admite ter pensado que seria fuzilado.

Entre 5h30 e 10h30, os 12 assaltantes ficaram no prédio livres para realizar sua operação. Sua estratégia era a mesma da quadrilha que, seis meses depois, invadiu outro edifício, localizado na mesma rua. Eles abordavam os moradores quando estes desciam de elevador, e chegaram a prender mais de 30 pessoas na sala de refeições, na garagem. Depois das 6h, Francier foi levado à portaria para cumprir sua função normalmente e não levantar suspeitas.

Os assaltantes foram embora no meio da manhã com jóias e dólares. O porteiro acha que não levaram computadores e coisas “menos práticas”. Não levaram outros carros além dos dois que já eram deles. A polícia só foi acionada depois que os assaltantes foram embora, mas Francier não sabe se eles foram pegos ou não.

A segurança foi reforçada apenas onde ocorreu a falha. O alambrado foi substituído por grades, e um sensor infravermelho foi acionado. Para os porteiros, não foi providenciado treinamento de segurança.

– Quando tem de pagar não acontece, né? Mas os moradores também não colaboram. Existe uma regra que diz que todos devem abaixar o vidro do carro e se identificar antes de o portão ser aberto, mas para alguns moradores é uma guerra abaixar o vidro.

No lugar errado, na hora errada
Aos 28 anos, Pedro* aceitou sair, com a mulher, de sua residência no Brooklyn e se mudar para um condomínio de luxo nos Jardins, para ocupar a profissão de zelador. Isso foi há 40 anos. Hoje, aos 67 anos, ele já viu um pouco de tudo. Viu suas filhas nascerem, crescerem e saírem de casa, por exemplo. Também já viu metralhadoras de perto, apontadas para ele.

No dia 1º de outubro do ano passado, ele sentou na guarita para cuidar da portaria por volta de 21h, enquanto o porteiro da noite não chegava para o trabalho. Abriu o acesso da garagem às 21h40 para um carro sair e, de repente, um outro carro desceu rapidamente a rampa de entrada.

O que aconteceu depois foi muito rápido. Rapidamente, já haviam rendido Pedro e o outro porteiro, que se preparava para ir embora. Uma menina chegou no prédio e Pedro foi forçado a deixá-la entrar. Ela foi rendida em seguida. Os assaltantes, então, procederam com o plano para invadir os apartamentos, mas foram repentinamente interrompidos.

Se o sistema de entrada foi rapidamente vencido pela quadrilha, o de monitoramento funcionou devidamente. A empresa contratada para fazer o serviço controlava os vídeos filmados pelas câmeras de segurança e, ao perceber a movimentação, fez soar o alarme.

– Eles ouviram um alarme e gritaram “Sujou, sujou, vamos embora!”. Não fizeram nada com a gente e fugiram.

Meia hora depois, quando a polícia e os moradores já estavam no andar térreo apurando os acontecimentos, os policiais receberam a informação de que uma quadrilha, também com quatro homens e uma mulher, tentava assaltar um prédio no bairro de Higienópolis.

Os 15 minutos em que o prédio passou sob domínio do bando não causaram danos materiais a nenhum dos moradores, mas tiveram efeitos mais duradouros no neto de seis anos de Pedro, que estava no local visitando os avós. Ele, a mãe e a avó foram presos pelos assaltantes no banheiro.

– Até hoje, quando meu netinho vem visitar, e alguém bate na porta, ele fala que é um ladrão. Eu tento conversar com ele e explicar que isso não vai acontecer de novo.

Mas o próprio zelador não acredita piamente no que diz, e admite ter receio de pessoas paradas na rua.

– Eles fizeram pesquisa no prédio por muito tempo. Hoje eu vejo com outros olhos quem passa na rua. Agora não tem tanto problema, porque eles reforçaram a segurança. Tem câmera pra todo lado, e três vigias que ficam andando pela rua à noite.

*Nomes fictícios

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