Com internet, turistas viajam mais e gastam menos

Posted on Junho 13, 2006


Ana Carolina Moreno
(Terra Magazine – 13/06/2006)

mundanos.com.br/divulgação
mundanos.com.br/divulgação

Pessoas com espírito aventureiro, que colocam algumas trocas de roupa na mochila e saem pelo mundo com muita coragem e pouco dinheiro não são novidade. Agora, porém, quem está infectado pelo vírus da viagem vem recebendo auxílio da internet para visitar um país desconhecido de maneira barata: comunidades virtuais de pessoas interessadas em hospedar turistas e serem hospedadas em troca.

Um dos mais populares sites com esse propósito é o Hospitality Club (Clube da Hospitalidade), criado em julho de 2000 por Veit Kühne, um ex-intercambista alemão. Com quase 150 mil membros de mais de 200 países, atualmente é a principal comunidade, operada apenas por voluntários e sem cobrança para os participantes.

Outro grupo que segue a mesma filosofia é o Couch Surfing Project (ou Projeto Surfando no Sofá), fundado pelo americano Casey Fenton e com quase 85 mil membros. Também gratuito, o projeto se financia pedindo doações voluntárias dos participantes e vendendo produtos pela internet, e alega já ter promovido mais de 37 mil experiências bem sucedidas para seus surfistas.

Menos popular, com cerca de 30 mil membros, é o Global Freeloaders, comunidade que, no próprio site, denomina-se grupo de “pessoas que se beneficiam da caridade, generosidade e hospitalidade de outros”. Quem iniciou o site foi Adam Staines, da Austrália. Em seu grupo, porém, hospedar é um requerimento. “Peço que você retribua ao site o que você pegou. Se você visitou 20 membros, espera-se que acomode outros 20 membros, no período de tempo mais conveniente para você”, escreve Adam, na página de informações aos novos membros.

O cadastramento é similar para todos. Basta ler os procedimentos e efetuar a inscrição, com seu nome, localidade e e-mail para contato. Existem ainda as opções de adicionar fotos, informações pessoais, interesses e histórico de viagens. O usuário pode escolher tornar visível seu endereço e telefone, ou repassá-los aos interessados em visitá-lo. Mas, ainda que a acomodação gratuita seja o carro de frente destes sites, o objetivo é outro.

“O Hospitality Club quer unir pessoas. Não somos um clube de estudantes ou de mochileiros, nosso membro mais velho tem 96 anos, e o mais novo tem 4. Temos médicos, professores universitários e especialistas em tecnologia da informação”, conta Florian Käfer, estudante de administração de turismo internacional na Alemanha e Inglaterra, e coordenador de mídia do clube.

Há quatro meses, Annette Showell-Moosbrugger se tornou mais uma dos cerca de 3000 residentes de Berlim que participam da comunidade. Com 55 anos e 18 meses de período sabático, ela se dedica atualmente à sua grande paixão: viajar. Depois de passar por Portugal, Espanha, Holanda, Finlândia e outras cidades da Alemanha, ela se prepara para hospedar, na próxima semana, um casal de sul-coreanos de 69 anos.

“Tenho amigos do mundo inteiro e sempre viajei. Mas o Hospitality Club facilita as coisas, com a internet e uma rede de membros”, explica Annette, que tem dois filhos e é divorciada. A ferramenta é atrativa não só para turistas com restrições orçamentárias, mas também para quem quer conhecer uma cultura com quem mais entende dela: os moradores locais.

“É uma maneira alternativa de viajar”, segundo Florian, “porque você pode conhecer pessoas locais e ficar com uma impressão do país completamente diferente de um turista. Quando você fica em albergues, você vai conhecer só turistas dos mesmos países industrializados, mas raramente vai experimentar o verdadeiro estilo de vida do lugar onde está”.

Saiba mais: http://www.hospitalityclub.org / http://www.couchsurfing.com / http://www.globalfreeloaders.com

Como entrar para o clube
Para se tornar um membro do Hospitality Club, basta entrar no site e se cadastrar. Os organizadores não cobram qualquer valor ou obrigação. “Você nem precisa hospedar alguém, apenas compartilhar a idéia da hospitalidade”, afirma Florian. No seu perfil, você pode revelar ou não seu endereço, telefone e e-mail. Também é possível adicionar fotos e outras informações, como sua formação, interesses e países visitados.

O usuário também define suas regras de acomodação. Explica se mora sozinho ou com outras pessoas, se pode hospedar ou apenas oferecer um jantar ou passeio pela cidade, e com que antecedência um visitante precisa entrar em contato. Em sua página, há ainda uma lista de pessoas que já o hospedaram ou foram hospedadas por ele, e outros usuários também podem registrar sua confiança nesse membro, como uma espécie de recomendação.

Além de procurar perfis, os membros podem se comunicar em uma sala de bate-papo e um fórum de discussões no próprio site. Periodicamente, são realizados grandes eventos. Em 3 de junho, cerca de 15 pessoas de cinco países se encontraram no Rio de Janeiro e, no último sábado, mais de 500 membros se reuniram em Berlim. Os encontros são realizados para incentivar a integração dos associados e diminuir a distância provocada pelo relacionamento virtual. “É como encontrar grandes amigos”, explica a alemã Annette.

A segurança, tanto do visitante quanto do hospedeiro, é uma preocupação de comunidades desse tipo. “Mesmo com mais de 100 mil membros e sem experimentarmos qualquer problema, aprendemos bastante sobre os riscos potenciais”, conta o francês Jean-Yves Hégron, um dos programadores do site. A regra seguida pelos membros é a verificação dos dados do passaporte do visitante.

O brasileiro Allan Vasconcellos, que já foi hospedado por mais de 30 membros do clube, afirma nunca ter ouvido histórias de experiências ruins em termos de segurança, apenas problemas normais de relacionamento entre visitante e hospedeiro. “Já ouvi dizer que algumas pessoas são mais espaçosas e sem noção, e acabam agindo de forma mais folgada”, diz.

Brasileiros são a sétima maior comunidade
Com imensa maioria de usuários alemães, e grande parte de europeus e norte-americanos, o Hospitality Club também tem sua cota de brasileiros, que ocupam a sétima posição em número de membros, mais de 5000. Allan Vasconcellos, de 26 anos, é um deles.

Associado do clube há cerca de dois anos, ele conta que já recebeu diversos viajantes em sua casa no Rio de Janeiro – a última foi uma inglesa, na semana passada -, e que já foi hospedado por mais de 30 pessoas no mundo todo. A primeira vez em uma viagem de dois meses na Europa, em 2004, e a segunda foi em uma volta ao mundo para 20 países, entre julho de 2005 e abril de 2006.

“Os lugares mais difíceis de chegar são os que têm menos membros, como Bolívia e Peru, ou alguns países da Ásia”, conta. “Na Europa, é muito fácil, assim como no Sudeste Asiático.” Ele calculou que, só na última viagem, que durou dez meses, a economia com acomodação foi de US$ 1200 a US$ 1500.

Essa não é a única vantagem que ele diz ter ganho ao utilizar o clube. “O mais importante é a chance de conhecer pessoas locais. Você tem um insight maior da cultura, de como as pessoas vivem, além de ter o melhor guia da cidade.” Ele só tem boas memórias dos momentos que passou na casa de estranhos do mundo todo. “Só 20% foram boas. O resto das experiências foi excelente.”

Uma das mais memoráveis aconteceu durante os jogos olímpicos de Atenas, em 2004. “Escrevi para várias pessoas da Grécia três meses antes. Só uma menina respondeu. Ela me disse que estava viajando pela América do Sul por oito meses e não estaria em sua casa, mas como tinha sido muito bem recebida na viagem, resolveu deixar minha amiga e eu ficarmos lá sozinhos. A vizinha abriu a porta pra gente e passamos dez dias lá. Economizei 400 euros, que era o valor mais barato que eu pagaria por hospedagem em Atenas”, lembra.

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